
A oportunidade que te dei
Acabou.
Não vi nada
Assim como nada fizeste
Foi mais uma chance em vão
Igual a tantas outras que tiveste.
Por favor nada mais peças
Fica com o que tens
Pois que a recordação
É um valor adquirido
Que só a ti pertence
Serve-te delas
Quando for preciso.
Se não houver recordação
Melhor.
Pois quer dizer
Que tudo era fingido
Nada vinha do coração
Não sei se procedo bem
De momento é o que sinto
Talvez um dia
Diga a mim própria
Que fiz mal em ter fugido
Hoje não sinto que bato em retirada
Estou a dizer o que sinto
Pois não existe mais nada.
Natália/7/96

Nas águas turvas
Do tempo
Eu lutei.
Por mais que faça
Ou que tentem fazer-me,
Pouco adianta.
A minha sina
É morrer.
Todos os dias
Morro um pouco.
Dia após dia
Sinto a vida a fugir
Como se tivesse
Medo de mim.
Há muito, vivo nas trevas
Donde não mais sairei
São trevas sem fim,
Onde por engano entrei
Que hei-de fazer,
Senão aguardar a minha hora..
Só não queria
Fazer sofrer
Aqueles que me adoram.
Dói-me de duas maneiras,
Uma delas, é o que sofro.
Outra o que faço sofrer
Tentando fazer o melhor
Acabo por fazer o que não devia fazer.
E nas águas turvas do tempo,
Tempo que com o tempo vai passando
Nas trevas me deixando
Sempre com o meu tormento
E o meu sofrer.
Natália/6/2/94


Nós somos muito humanos
E a todos gostamos de ajudar
Enquanto os nossos velhos
Andam pelos bancos a dormitar
Nos outros países
Somos sempre os primeiros
A dar a mão aos desalojados,
Aos desprotegidos da sorte
Enquanto que no nosso
Somos uns desgraçados.
Casa não temos,
O desemprego não falta
A juventude é uma lástima
Os velhos um tormento
Não há lugar para ninguém
Neste país em que vivemos.
Os impostos sobem
O dinheiro diminui,
A barriga aperta-se
Para as despesas pagar.
E os filhos que são nossos
Temos que os sustentar,
E o Governo tenta ignorar
Fechando os olhos
Ao que se está a passar.
Natália/92

Ao fim destes anos
Nada melhorou,
O desemprego aumentou
A fome continua,
A saúde é uma desgraça
E os nossos velhotes
Chegam a morrer
Em qualquer lugar,
Num vão de escada,
Nas pedras de uma calçada,
Ou esquecidos num lar.
Natália/09/05/2005

